quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Alma do meu cantar
canto do meu voar – 1980?

foto: Pablo Fabián - 2006

Não posso conter
Às aves que voam
Em busca de estrelas
No céu de minha boca

Ardem-me à garganta

Evocando um canto
Que só as aves
Conseguem cantar

Minha garganta se abre
Para que o seu céu
Possa existir

Não posso conter
As aves que voam
Em busca das estrelas
Do céu de minha boca

Não posso conter
Elas se alimentam de mim
Da carne do céu
Do céu de minha boca

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Disbundísmo
ata de inauguração – 23 de abril de 2004

foto: Daniel de Andrade - 1992

Lavro assim esta ata
Faz-se assim constituído
Num “insight”, num movimento
O “Disbundísmo Difundido”

Tais fundamentos se perdem
No período reflexivo
Freqüentando pensamentos
Já nasci comprometido

Eram os anos cinqüenta
De inquietações e contrastes
Da tecnologia inquietante
Das lembranças do desastre

Comemoram-se lembranças
O fim do desordeiro
Um povo pulverizado
E o lobo como cordeiro

A teoria dos conjuntos
Matemática moderna
O pensamento filosófico
Naufraga na baderna

Pós-guerreiros degenerados
Em crise existencial
Buscam no cheiro das flores
O antídoto do mal

Tem-se assim da rebeldia
O indicativo da luz
Uns encontram o caminho

Outros vestiram o capuz

Perceber
conto da madrugada - julho de 1983

arte: Pedro Pires
foto original: Enrique Fabián

O dia estava nublado.
Isso, não era suficiente para que Nibaldo deixa-se de caçar borboletas.
Verônica olhava através da vidraça embaçada,
As luzes pareciam borboletas,

E Nibaldo nem se dava conta.

Marcas
macacos me mordam – 1982


foto: Daniel Vidor

Minha vida é marcada
Por uma busca cega e alucinada
Regada por obsessões e exageros
Possibilitando incursões
Pelos subterrâneos da mente
Onde percorro as mais intensas

E envolventes emoções

Juntos?
conto da noite - julho de 1983


foto: Eduardo Tavares

Jabuco balbuciava em cima de seu sorvete
Odete delirava, debruçada, sobre o livro
E Raimundo pairava sob o efeito de seu baseado.
A campainha soou! Gritou Odete.
Gritou Odete? Perguntou Raimundo.
Jabuco correu à porta e atendeu o carteiro que trazia uma mala.
Jabuco fechou a porta, guardou a mala e mergulhou, neurótico, em seu sorvete.


segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Nem muito, nem tão pouco
conto da tarde - julho de 1983


foto: Pablo Fabián

Leôncio mostrava a seu filho
Que a vida que tinham era bela.
Seu filho, Hipólito, porém retrucava
Exemplificava a sua pouca sorte
Leôncio mostrava a seu filho
Que a vida que tinham era bela.
Exemplificando que a sua pouca sorte,
Não era, assim, tão pouca.
Hipólito se indignava
E ao velho pai retrucava.
Leôncio mostrava-se tranqüilo e seguro.
Hipólito achava que ele mentia...

Leôncio tinha certeza.

Yo profeta
“insights”...la academia esta llena de idiotas... – 1989


foto: Pablo Fabián - 1995

Pongo mis ideas en la boca
De los santos, de los dioses,
Brujos
, sábios, pensadores,
Oráculos, príncipes y profetas.
Me creen,
No me discuten ni me culpan.

¿Al final, quien soy?


Virgo
espelho cigano – 1º de outubro de 2002


foto: Pablo Fabián - 1981

O sorriso de um virginiano é um elogio a inteligência de quem o faz rir.
Exigentes, e ora sectários, detestam a mediocridade e a falta de classe.
Timidez não é o sinônimo da exagerada, autocrítica e necessidade de ser excelente, perfeito.
Se me perdoas o uso chulo das palavras, "uma merda" de atitude, que provoca mergulhos internos de um martírio carrasco.
Céticos, ora frios e racionais, precisam atender a um padrão de certezas que, muitas vezes, inexiste e impede o ascenso da irreverência criativa.
Hippies de vitrine, de planejada displicência são capazes de passar horas despenteando, harmonicamente o cabelo.
Seres impares e invejados pela segurança que transmitem. Por mais que em mundos internos, o caos seja soberano.
Criticados e copiados, estruturam, sistematicamente, tudo por onde passam. Umas malas. Porém completas, organizadas e previdentes. Malas com varias alças, rodinhas bem lubrificadas e com cores que combinam com a meias ou a roupa íntima.
Deliciosos e desconfortáveis são elementos indispensáveis na construção da surpresa, do encanto e do cuidado com detalhes que fazem a diferença.

Örlij the King of Babalhür

msn – maio 2003


foto: Patrícia Fabián - 2005

Do reino de Babalhür, das profundezas de Tzür
Surge, horripilante, o Rei dos inconseqüentes.

Babalhür fica sempre mais pra lá,
Pra lá de logo ali.
Nunca passamos por ela
E nem ela fica aqui.

Tzür, já mais conhecido
É o vale dos esquecidos
Vale dizer se lembrado
Traz na lembrança um castigo

Do reino de Babalhür, das profundezas de Tzür
Canta, com dissonantes, o Rei dos incompreendidos.

Filho de Catz e Romilda Bittencourt
Sabe-se lá onde anda
Neste vale profundo
Aquele que ninguém manda.

Örlij se chama assim
E ninguém nunca o encarou
Dizem que quem o fez
De Tzür jamais voltou

Do reino de Babalhür, das profundezas de Tzür
Janta, come elefantes, o Rei dos intolerantes.

domingo, 30 de setembro de 2007

Ojos, ejes, ajos e hijos

retumbante y sonoro – 1º de noviembre de 2003

foto: Rodrigo Pires - 2003

Tenía los ojos
Los hijos
Los ejes

Lloraba los ajos
Amaba sus hijos
Abría los ojos

Seguía en sus ejes
Dejaba los ojos
Mirando los hijos

Comía los ajos
Amaba sus ejes
Tenía los ojos

Amaba los hijos
Sentía sus ejes
Con sus propios ojos

Tenia los hijos
Lloraba los ojos

Perdido en los ejes

Lady Jane
lembrei de ti á tarde – 31 de julho de 2006

foto: Janice Machado - 2007 / arte : Pablo Fabián - 2007

Querida, amada e graciosa parceira, amiga e amante
Espero que teu dia tenha sido recheado de sucessos e que teu desgastante fazer tenha se revertido em mais um degrau dessa sublime escada que decidiste subir.
Que os céus estejam sempre te abençoando
Que teus olhos nunca se fechem à luz que brilha em teu entorno
Que teu cansaço não seja um estímulo a parar
Que teu sucesso alimente mais tua alma que teu ego humano
Que teu amor se universalize
Que teu medo seja uma lembrança de um passado superado
Que teu guerreiro sobreviva a cada morte
Que os nossos caminhos continuem se cruzando para que eu possa, a cada parada, te dar meu ombro.
Te admiro e te amo

Justiça cega
conto do dia -
julho de 1983

foto: Ceres Storchi - 1979

Já pairava no deserto a machadinha...
É uma miragem! Comentou Libório.
Só podia ser.
Mas na verdade, era o lenhador que se tornara invisível aos olhos de Libório e seus amigos.
Pancrácia sorria e corria solta levantando nuvens de areia com seus chinelos de dedo.
Atrás daquele rastro de fumaça
Se escondia a fenda máxima,
O pudor do dia,

A flagrância constrangedora, que aos poucos levou Libório a matar seus amigos.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Na evidência do espaço, junto alguns retalhos na busca de algum sentido...


A caminho do céu
“insigth” – 1981

foto: Pablo Fabián - 1978

Todos vão pro céu.

A diferença é que uns sofrem mais que outros, para chegar lá.



Lavando a alma
histórias que me contaram uma vez ..... 18 de junho de 2002

arte: Pablo Fabián - 1972
Era uma vez, (na verdade seria uma vez num futuro distante) um grupo de estudantes, do ensino básico de Psico-cibernética Avançada, que se encontrava às vésperas da entrega de um trabalho para a Feira Anual de Conhecimento Integrado sob a pressão natural exercida pelos mestres dessa entidade.

Após questionarem e destruírem todas as idéias que apareceram para solucionar essa questão, surge a idéia de buscar em antigos escritos uma pista que viesse a ilumina-los. Um dele encontrou, em um sebo no nível 32 da cidade velha, uma publicação do ano 1230, da era cristã, sobre a materialização de demônios, entidades negras e elementais. Imediatamente os olhos dessa turma se transformaram em pura luz.

Iniciaram a coleta dos materiais necessários e partiram para a preparação de um trabalho que seria sem dúvida o grande show da feira.

A idéia era simples, bastava materializar o demônio e assim que ele aparecesse o anestesiariam e o exporiam na feira e ainda aproveitariam para estudá-lo.

Dito e feito, no dia da feira o circo estava armado, com as ervas reunidas as palavras invocadoras foram pronunciadas e no meio de um ruído ensurdecedor e uma fumaça fedorenta apareceu, ainda meio deslocado, uma figura dantesca, realmente horrível, asquerosa e muito fedorenta. O demônio foi imediatamente imobilizado e, para evitar que praticasse qualquer tipo de inconveniente, foi anestesiado com uma dose cavalar de uma droga infalível.

A feira foi um sucesso e eles alcançaram nota máxima, tendo seus nomes divulgados nos mais reconhecidos instrumentos científicos de divulgação.

Ao encontrar a publicação, a Dra. Marietta Schüllep engasgou-se com um gole de chá, apagou o baseado na manteiga e correu para o tele-trasportador.

Imediatamente encontrou-se com o grupo de jovens para ver de perto a façanha da materialização.

A Dra. Marietta Schüllep estava envolvida num projeto de recuperação da memória histórica das ciências ocultas do Século XI e casualmente estudava, como sendo uma fantasia, a materialização de entidades.

Associou-se ao grupo de jovens e convidaram o Dr. Pike Niki especialista em anatomias espectrais para analisar o corpo quimicamente latente.

O Dr. Pike Niki constatou um número sem fim de moléstias, ora atuantes ora encubadas que se manifestavam no estranho corpo em estudo.

O demônio estava lá, inerte, sedado.

O Dr. Pike Niki estava extasiado com o conjunto de "doenças", a maior parte delas extintas, que configuravam um resgate sem precedentes no campo das ciências da decrepitude.

Ao poucos, na medida que identificavam as moléstias, anulavam os efeitos maléficos com antídotos e vacinas.

Era impressionante a metamorfose resultante desses procedimentos, onde a expressão maldosa e sofrida desaparecia do semblante do demônio adormecido.

Foram várias semanas de trabalho.

No vigésimo quinto dia, conseguiram identificar a última moléstia desse ser das trevas, que de trevas já tinha muito pouco.

A pele do demônio estava clara, hidratada, saudável.

Seu rosto já esboçava um sorriso tranqüilo e seu coração manifestava uma harmoniosa melodia.

Ao eliminar a última doença, o ser acordou.

Espreguiçou-se longamente, sorriu docemente e de suas costas surgiram duas brancas e majestosas asas que combinavam com o róseo pálido de sua pele delicada.

Desejou sorte e saúde com os olhos e subiu aos céus como um anjo recuperado.

foto: Pablo Fabián - 1978