segunda-feira, 22 de junho de 2009

A arte ritualesca da gastronomia como suporte na fisiologia da digestão
reflexão digestiva com Lúcio Pacheco e Laerte Martins - 20 de junho de 2009

foto: Pablo Alejandro Fabián - 2003
A Gastronomia compreende, mais que uma busca hedonista de estimulo aos prazeres do paladar, um ritual carregado de sabedoria. A ciência do bem comer, se apóia em profundos conhecimentos fisiológicos e psicológicos que, levam a uma melhor digestão e uma maior absorção dos nutrientes envolvidos. Essa é a função do prazer de comer, ou seja .. fazer com que as pessoas comam, se alimentem e se nutram para melhor atender as funções vitais do organismo.
A função da gastronomia consiste em estimular os diversos centros nervosos e provocar as atividades eletroquímicas necessárias para, um relacionamento perfeito, entre nossas necessidades de reabastecimento e o "combustível" que estamos utilizando. A relação pode começar pelo sentido olfativo ou pelo sentido visual, dependendo da situação, e a partir da complexa rede de informações de nosso organismo, algo faz com que iniciemos o processo de salivação. Nesse momento já foi dado o "start" do processo digestivo, antes mesmo de levarmos o alimento a boca.
Justificam-se, na gastronomia, os odores e suas combinações assim como o efeito visual que nos causa um determinado arranjo dos alimentos.
Se o ritual respeitar "os tempos" do organismo, ao colocarmos a comida na boca, já estaremos aptos a digerir, adequadamente, esse alimento. O sistema digestivo é informado previamente e a produção dos sucos gástricos e de outros elementos e funções pertinentes são ativados.
A maior parte das opções da linha "fast-food", além de - na maior parte das vezes - não estar adequada do ponto de vista nutricional, pecam pela impossibilidade da ritualística indispensável para o bom funcionamento digestivo. São extremamente industrializados, carregados de ácidos graxos, açucares complexos e uma excessiva carga de amido, estão contextualizados num cenário de condições adversas às possibilidades de reação do organismo à preparação da receptividade para o alimento. Distúrbios de peso, digestão lenta, pouca elasticidade da pele e cabelos sem vida são alguns dos muitos sintomas da aventura de mal se alimentar.

Reforço o fato de que podemos comer muito mal consumindo, apenas, produtos de primeira, orgânicos e saudáveis. Basta que desrespeitemos nosso organismo, não privilegiando o ritual da refeição.

Particularmente, gosto muito dos "ditos populares", esses que as avós usam para resolver situações. Por exemplo: Em caso de indisposição digestiva, o melhor é não comer até que dê fome. E nesse momento cabe prestar muita atenção tentando descobrir que tipo de fome é. Fome do que? Com o que, meu estômago gostaria de matar essa fome? A resposta a essas perguntas é uma informação vem do próprio organismo e indica o remédio.

Os primeiros rituais gastronômicos, por mais que os franceses proclamem Antoine Careme (1748) como o criador da cozinha francesa e da alta gastronomia e os romanos (500 anos antes de Cristo) produzissem suas orgias gastronômicas, datam do paleolítico e vem desde então aperfeiçoando-se, tanto na culinária - propriamente dita - como na ritualística.

Outro ponto fundamental para a boa alimentação, além da mastigação e conseqüente salivação (que é um tema que requer uma abordagem a parte), está na construção do cenário adequado. O ambiente da refeição faz parte do ritual gastronômico. Analisando do ponto de vista da psicodinâmica das cores, os tons de ocre, alaranjados e amarelos claros, estimulam a produção dos sucos gástricos. Condições ergonometricamente adequadas, luzes quentes e sonoridade confortável - com música (cabe ressaltar que arranjos melódicos são mais adequados que os rítmicos) - contribuem positivamente na construção desse ambiente propício.

A Gastronomia é uma arte complexa que utiliza, entre muitos elementos, um bom prato de comida.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

MOTIVOS

... o vazio ... - 24 de abril de 2005
Queria poder te dizer palavras bonitas
Mas, me faltam palavras...
Queria poder te fazer um carinho
Mas, me faltam motivos...
Queria poder proclamar esta amizade
Mas, me falta a amiga...
Queria poder dizer que foi bom
Mas, me faltam boas lembranças...
Queria poder fazer algum plano contigo
Mas, me falta futuro...
Queria poder rir contigo
Mas, não acho mais graça...
Queria poder conversar
Mas, te faltam palavras...
Queria esquecer que tu existes
Mas, me sobra memória...
Queria pensar que poderia ter sido bom
Mas, não acredito mais nisso...
Queria poder voltar no tempo
Mas, o futuro me espera...




domingo, 25 de janeiro de 2009

Discurso de paraninfo da formatura dos cursos de Jornalismo, Publicidade e Propaganda e Relações Publicas - 2008/2 da faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS.

24 de janeiro de 2009

Sras. e Srs presentes, pais, parentes, amigos e simpatizantes
Queridos alunos, Sr. Diretor, Professores, Funcionários
Primeiramente gostaria de dividir com vocês que fiquei curioso (quando convidado) com o sentido original da palavra paraninfo.
E para tal ...
Elevei meu pensamento e invoquei São Google, dei "enter" e ...
Do latím: paraninphu, que veio do grego "paraninphus", formado de - para (junto de), mais - nymphe (noiva).
Desde a Grécia, passando por Roma, era quem protegia o noivo ou a noiva.
O Paraninfo (ou paraninfa) tinha muitas incumbências, entre elas:
Examinar e endossar a pureza da noiva;
Preparar o casamento e o quarto dos noivos (convites, decoração da igreja, festa, bolo, salgadinhos, cortinas, cama, lençol, travesseiros, urinol, etc...) - atributos, popularmente destinados aos Relações Públicas.
Era também incumbência ...
Dormir no quarto ao lado na noite nupcial, para assegurar pronto atendimento no caso de ameaça à integridade física da noiva.
Depois da lua-de-mel, o trabalho continuava:
Contornar eventuais desavenças entre marido e mulher no convívio conjugal.
Ou seja ... ser paraninfo era uma encrenca!
Hoje - Uma Honra - pelo menos pra mim.
Dentre algumas das atuais incumbências, está o discurso.
Particularmente acho discursos muito longos, até chatos, mesmo os mais eloqüentes.
Neste momento, atendendo àqueles que pensam como eu, serei o mais direto possível.
Para cumprir a promessa de ser pontual, vou dividir esta fala em três pontos.
E antes de começar, uma alerta que é baseado num ditado Tolteca, que em síntese diz:
"Não acreditem em nada, mas prestem muita atenção".
o 1º ponto é de ordem pessoal (e peço que me desculpem), se refere à importância que esta instituição tem na minha vida:
Em 1955, inicia-se a minha relação com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, nessa época não federalizada.
Nesse ano, meu pai Roberto Fabián, arquiteto e urbanista, foi convidado a desenvolver um pós-graduação em urbanismo para a então Faculdade de Arquitetura da URGS. Nessa época moravamos em Buenos Aires e eu tinha dois anos.
Em 1956 viemos de muda para Porto Alegre com toda a família.
Em 1964, minha primogênita irmã Marta, ingressa - via vestibular manuscrito - no curso de Biologia da URGS, onde atualmente é professora associada.
Meu irmão Enrique, em 1968, é aprovado no vestibular de Medicina, também desta casa.
Não cabia nos paradigmas da minha família, a possibilidade de ingressar em algum curso superior que não fosse na URGS.
E dessa forma, na sequência, em 1974 fui aprovado no vestibular para Comunicação Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul - nossa querida Fabico.
Era tão única a opção pela UFRGS que, quando voltei pra casa com a notícia, correndo para contar ao meu pai, (ele estava sentado, lendo um livro e eu entrei orgulhoso, radiante, vitorioso ... anunciando em voz, anunciando em voz alta meu feito) olhou-me por sobre os óculos e num tom de pouca surpresa perguntou: Fizeste vestibular pra rodar?
Em outras palavras me fez perceber que não havia feito nada que não minha obrigação.
Então, um pouco menos inflado, iniciei minha aventura acadêmica tentando entender que curso era esse que eu havia escolhido.
Nessa época eu já me bancava financeiramente trabalhando como fotografo e não foi difícil me identificar com Jornalismo e Publicidade.
Depois de passar pela RBS e Martins&Andrade, fui trabalhar, como fotografo, no Gabinete do então Reitor Homero Só Jobim - pelas mãos da professora, orientadora e amiga Martha Alves de Azevedo e no início de 1977 tornei-me funcionário federal. No fim desse mesmo ano me formei. Não com tanta pompa e cerimônia como vocês, pois distraidamente esquecí de vir a formatura.
Se cabe a um paraninfo dar conselhos, ai vai um:
Nunca digam nunca. Explico ...
Fiz meu curso no tempo estipulado - 4 anos.
E jurei pra mim mesmo que nunca mais voltaria lá.
No entanto ... nunca mais saí.
Em 1978 torne-me professor de foto do Colégio de Aplicação e nos anos seguintes, iniciei minha trajetória didática dentro da Fabico.
Talvez saia neste ano, aposentado.
Obrigado UFRGS, obrigado a todos que me ajudaram e me atrapalharam.
O 2º ponto se refere à nossa missão como comunicadores:
Inicialmente, cabe frisar que comunicação não é fim, e sim meio.
A comunicação é o principal meio de relacionamento e nós temos expertise em relacionamento.
O mundo muda rápido e por caminhos imprevisíveis.
As previsões do filosofo e educador canadense Herbert Marshall McLuhan, que proclamavam a "Aldeia Global" já no inicio dos anos 60 - se cumpriram em parte - o deixaria perplexo, saber que podemos ter uma indústria administrada em São Paulo, com parque fabríl na China, estrutura de logística sediada em Londres, os produtos consumidos na Austrália e na África e o "Din-Din" depositado numa âgencia do Banrisul em Anta Gorda.
De lá pra cá aprendemos a "deletar" amores, "adicionar" amigos, fazer "upgrade" nos conhecimentos, dar e receber "feedbacks", "resetar" processos que engasgam, dar um "Format C" em processos que não deram certo ou dar um "Control-Alt-Del" quando as coisas andam meio travadas ....
Essas mudanças nunca são totalmente digeridas e cabe - a nos "Comunicadores" catalizar esses processos.
Cabe-nos mais...
Cabe-nos olhar para o futuro - e identificar tendências
Cabe-nos exceder nossos limites de entendimento.
Cabe-nos, a todo o momento, quebrar paradigmas
Cabe-nos aprender a julgar menos e entender mais.
Cabe-nos, entender - sempre e nunca esquecer, - que somos pessoas trabalhando para aproximar pessoas.
Cabe-nos ter uma vida digna e prospera, pois lutamos pela dignidade e prosperidade, em todos os níveis que se estende a vida.
Assim como o arquiteto é pautado pelo ambiente e sua luz, nos comunicadores, somos pautados pelas dificuldades humanas de relacionamento. Criamos ambientes e circunstâncias onde a luz circula e a energia entre as pessoas flui.
Infelizmente as instituições de ensino superior e técnico se transformaram em fábricas de desempregados. Não orientamos os alunos a serem empreendedores. Não ensinamos, num cacoete cristão, como ganhar dinheiro. Os professores não falam em orçamentos e valores reais, ... talvez por que não saibam fazê-lo.
Cabe a vocês não ter medo nem culpa de ganhar dinheiro.
E isso, me remete para o 3º ponto, que se refere a nossa missão como seres humanos:
Vou destacar 3 dos muitos pontos que incidem ...
A Qualidade de Vida - que começa pela possibilidade de deitar a cabeça no travesseiro e dormir.
É fala desta casa "O Comportamento Ético" e as demais virtudes humanas.
O inferno é individual, é o contraste entre o que sabemos e o que praticamos.
Valendo-me de referencias bibliográficas: "Bem aventurados os pobres de espírito, deles será o reino do céu" - isso se refere aos ignorantes e incautos, desprovidos de culpa pela falta de conhecimento e referencia.
Vocês - meus queridos - não fazem parte dessa categoria. Vocês sabem - e não existe o "dissaber" assim como, também, não existe essa palavra.
2º aspecto - O amor próprio - Não esqueçam que vocês são seus clientes nº 1 - E se vocês não cuidarem de vocês mesmos, com carinho, atenção e determinação, não terão nenhuma utilidade para quem quer que seja.
Isso não é filosofia ou a pregação de algum iluminado. Isso é ciência. Engenharia de Segurança - e poderão constatar em qualquer vôo doméstico ou internacional, enquanto saboreiam uma deliciosa barra de cereais: "Em caso de despressurização - máscaras iguais a esta cairão a sua frete. Puxem para liberar o ar e blá-blá-blá" e assim por diante e ai ... "caso haja uma criança ou pessoa idosa, coloque primeiramente a máscara e você e depois ajude" ... ou coisa similar.
Preparam-se. Capacitem-se para serem úteis. Amem-se.
Dessa forma o 3º e último aspecto se refere ao poder do amor.
Nova onda nos fala de Net-work. Trata-se de uma rede poderosa de relacionamentos com a finalidade 1ª de oportunizar negócios. Business. " Your job!"
Uma vez uma colega de trabalho, me criticou dizendo: Pablo tu misturas as coisas - trabalho é trabalho - amizade é amizade e amor é amor.
Num impulso impensado, como se meu coração respondesse uníssono com a minha mente - respondi: Não sou eu que misturo, tu és quem separa - é junto - é gente - somos integrais.
E creio que foi nesse momento que eu tive o insight da Net Love - Maior que a Net Work - Net Love. Rede de relacionamentos sinceros, verdadeiros onde a própria Net Work tem seus transitos facilitados.
Se não me engano, os únicos profissionais que falam em algo parecido são os advogados. Eles chamam de affectus societatis e se refere aos motivos (não tangíveis) que incidem nas sociedades e parcerias.
Tem um dito popular, que ao meu entender, peca na interpretação da essência humana:
"Onde se ganha o pão, não se come a carne"
Como acadêmico, sou obrigado a discordar e me agarrar às estatísticas:
75% dos relacionamentos iniciam em ambiente de trabalho ou escolar.
Aliás, não poderia ser diferente, passamos a maior parte do tempo trabalhando ou estudando.
Minha 1ª esposa é dentista e a conheci graças à ditadura militar que não permitia que a Fabico tivesse bar ou qualquer outro lugar de reunião, o que nos obrigava a frequentar o bar da Odonto. Bingo - casei.
A 2ª é Relações Públicas e foi minha aluna na Fabico.
Minha atual companheira é Engenheira Química formada pela PUC - resolvi experimentar outra instituição - esse pessoal da UFRGS se separa muito.
Somos energia e como tal nos relacionamos.
A energia de um sorriso, atrai sorrisos, a energia da indiferença atrai indiferença. Colhemos o que plantamos.
Acreditem que vocês merecem - e construa um futuro próspero e saudável.
O xamã Don Juan, segundo Carlos Castañeda (autor que teve destaque nos anos 70 e 80),
define o medo como o 1º inimigo do homem. Apenas o primeiro de muitos - e muito mais perigosos. Portanto meus amados - já - colegas comunicadores, se sucumbirem ao medo estarão fadados a uma existência medíocre. Não sejam médios.
Já ouviram falar o Alexandre, o Médio?
Tenho certeza que não, esse não entrou para a história.
Não tenham medo
Não tenham medo do mar - tenham cuidado
Não tenham medo de dirigir - tenham prudência
Não tenham medo de ganhar dinheiro - tenham projetos de vida
Não tenham medo de errar - aprendam
Não tenham medo da solidão - amem
Não tenham medo das pessoas - se relacionem
Não tenham medo dos opostos - se associem
Não tenham medo de morrer - vivam com toda a intensidade
Não se acomodem com a dor
Não se acostumem com o insucesso
Briguem, Lutem e Comemorem
Obrigado por me convidarem para ser o Dindo de vocês!
Adorei - Contem sempre comigo ... Boa sorte ... Amo vocês.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Papai Noel existe
reflexão natalina - 24 de dezembro de 2008

Foto: Pablo Fabián - Auto retrato - 1975

Pela primeira vez na minha vida, paro pra fazer uma reflexão natalina.
Na realidade não senti
, nunca, a necessidade de fazê-la.
Desde pequeno o Papai Noel Coca-Cola não convencia.
Era só uma festa com bônus de presentes, gentilezas, comidas gostosas e poucas regras.
Todos faziam um grande esforço para serem felizes e o resultado acabava sendo bom.
Por mais que Santa Cläus aparecesse travestido de garrafa de refrigerante, o resultado positivo nos fazia acreditar que "Deus escreve certo por linhas tortas".
Ou seja: (pensava) Papai Noel existe! - (de um jeito ou de outro).
O tempo de desacretidar nessa alegoria é por volta dos cinco anos de idade, mas eu acabei questionando aos meus cinqüenta e cinco.
A dúvida que me perturba é se eu parei de acreditar nele ou ele em mim.
Com o passar do tempo, o tempo passou.
Minha mãe, articuladora e provedora, aos seus 86 anos, mesmo sem jogar a toalha, precisa ser provida e está desarticulada. A noite de 24 de dezembro é, pra ela, mais uma noite que acaba às 20 horas. Isso a impossibilita de participar de uma atividade que, normalmente, se desenvolve noite a dentro.
Ou seja: alguém ficará com ela na noite dos dingo-béis.
Achei de bom tom, que seja eu.
Meu amado filho, parceiro e amigo se encontra numa jornada aventuresca em terras australiana (o que pra mim é fruto de admiração com uma pitada de tristeza - egoísta minha - por não poder - nesta noite - abraça-lo e presenteá-lo com uma bugiganga qualquer em torno de um esquizofrênico pinheiro nevado a mais de 30ºC).
Frente a essas circunstâncias entendi que o melhor para minha filha-parceirinha, é que passe as atividades natalinas com a mãe (e sua família) onde gozará com primos, avós, tios numa típica imagem festiva e confraternizadora.
Juro do fundo d'alma que isso ainda me revolve os sentidos. Mas é uma opção, ao meu entender, necessária.
Realmente decidir não é escolher, é abrir mão.
Dessa forma dou apoio a minha, super apoiadora, irmã fazer uma prolongação festiva junto à família de seu marido (amado e querido).
Meu irmão, em terras ibéricas, brindará com sua esposa e prole e tentaremos, como sempre fazemos nessas datas, telefonar-nos driblando as linhas congestionadas.
Este ano eu cheguei a duvidar da existência do bom velhinho.
Ao mesmo tempo, não paro de escutar um hô-hô-hô distante, que me sugere que estou ganhando de presente, algo que ninguém poderia me dar: A oportunidade divina de ser o guardião do sono daquela que fez de tudo pra que eu acreditasse.
Feliz Natal pra todos e se encontrarem o Papai Noel entrando pela chaminé, porta ou janela, acreditem que é a concretização do desejo que temos de viver em paz, com amor e harmonia.
Dia 25 almoçaremos em família.
Dingo-bel !

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Fim de Ano
relações com o ano novo - 31 de dezembro de 1991

foto: Pablo Fabián - 2008
Sai do cano
Um sofrimento plano
De uniforme insano
Nas gotas, reflexos passados
Vem o ano
O funil luminoso que encanta
Vem o ano
E ainda do cano
De sofrimento insano
Vemos nas gotas
Os reflexos dos sonhos que ainda não sonhamos.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

RELEITURA
...num cantinho escuro da minha oficina - janeiro de 2008

foto: Joe Kerber - 2008
Intensos nossos meses
Meses de quebra
De abertura a novos planos
À construção incessante
Da relação que não para de acontecer
De morrer
De renascer
De fortalecer
Meses de sobra
Nos laços
Da fartura hedonista
Do visitante luminoso
Do calor
Caribenha Caeté
Meses de luta
Na revisão silenciosa
Da avaliação criteriosa
Da iluminação dos recantos sombrios
Dos últimos conflitos

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Carnaval do Apocalipsis
...é o 2012 chegando, minha gente... – julho 2008

foto: Pablo Fabián - 2003

Estou preparando o carnaval das almas
Que se dará depois do furacão

20 bilhões é o contingente
Deste planeta em ebulição
Os destinos já estão desenhados
Que vão da luz até a escuridão

Estou preparando o carnaval das almas
Que se dará depois do furacão

Alguns de nos, já convocados
Pela leveza de seu coração
Outros ainda dormem acordados
Fazendo disso uma confusão

Estou preparando o carnaval das almas
Que se dará depois do furacão

Os nossos mestres bem aventurados
Estão aqui para nos dar a mão
Em muitas naves muito iluminadas
Nos levarão à 4ª dimensão

Estou preparando o carnaval das almas
Que se dará depois do furacão

Mas tem aqueles karmatizados
Fazendo sempre muita poluição
Serão levados pra outro lado
Perdendo a nave da evolução

Estou preparando o carnaval das almas
Que se dará depois do furacão

Mente serena é o que se precisa
E muita luz de amor no coração
Respire fundo, ame a vontade
E venha junto cantar este refrão

Estou preparando o carnaval das almas
Que se dará depois do furacão

domingo, 25 de maio de 2008

Aurorecer
do clarear aos cantos escusos – 12 de maio de 2002

foto: Pablo Fabián - 2006

Vejo ganhos, vejo intrusos,
Nos projetos que proclamo,
Vejo custos, vejo enganos,
Nos momentos mais profundos.

Faço contas, conto os fundos,
Olho em volta e vejo o dia,
Me reporto ao passado,
Com profunda miopia.

Me aventuro em pensamentos,
Faço planos em segredo,
Reflito o cotidiano,
Com gosto amargo de medo.

Do horizonte o Sol me aquece,
Nesta visão matinal,
Hoje é manhã de Domingo,
E parece tudo igual.

Como crio a diferença?
Como construo um viver?
Talvez me falte paciência,
Ou eu não saiba morrer.

Busco força nas estrelas,
E tento me convencer,
Que olhando pela janela,
Não faço acontecer.

Oh, preguiça de vida,
Mas que medo de viver,
É como se vivendo,

Tivesse algo a perder.

O retrato está sem foco,
E a frase não tem fim,
Pra concluir esta estrofe,
Tem que vir algo de mim.

É silêncio e todos dormem,
Só o galo acordou,
Pra lembrar às pessoas,
Que a vida não acabou

sexta-feira, 16 de maio de 2008

O Nome da Fome
o buraco na alma – 16 de novembro de 2002

foto: Pablo Fabián - 2008
A liturgia recai sobre os nomes de poucas pessoas.
Já, hibridamente falando, esperaremos, safos, os efeitos do holocausto.

E, todos os dias, quando o planeta explode, retomamos o cotidiano de fazer tudo outra vez.

E dessa forma se repetem nomes de renome em pessoas de um mesmo nome. Duas vezes o mesmo nome, bi-nome, binômio, Pinóquio ou Bin Laden.

Brasileiro santo em seu nome.

Homem santo que não come.

Brasileiro de renome

Homem santo com fome.

Santo da fome

Guisado de santo com adornos de esperança

Homem santo criança

Herança sábia das zonas escuras

Santa herança e sua clausura

Arrogante e assustado

Meio sábio, meio infante

Um sorriso intolerante

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Sem Nome
relembrante – 22 de abril de 2006


foto: Pablo Fabián - 2002

Que coisa...as idéias se cruzam e perturbativamente produzem clichês marqueteiros para dar, solenemente, o “start” do processo.
Frases prontas e na real eu queria contar um pouco da minha história.
Desde cedo me desvencilhei do peso do jogo.
Eu não sabia que não era para perceber.
Eu percebia. Jogava o jogo.
A burla aos valores em poses hipócritas.

domingo, 4 de maio de 2008

Casulo Insolente
retreta da vida - 26 de abril de 2008

foto e arte: Carlos Fabián - 2008

A vida não é cadeira
A vida é pra caminhar
Se não tens aonde ir
Levanta para dançar

A vida só é legal
Quando se torna iniciática
Prazer também é bom
De forma bem homeopática

terça-feira, 22 de abril de 2008

O último dos Europeucos

nem sempre o retribúrcio reguardía a bancada – 28 de agosto de 2004

atitude reflexiva momento brando – 31 de agosto de 2004

Lá, bem embaixo de nossos desapegos
Escondido entre as nossas doenças
Está o caramujo...a ostra
E mais ostra...
Uma atrás da ostra...
A lúgubre repousada solfeja, alerta, suas virtudes
A noite penteia certa ao som da nostalgia
Vitimas do ocaso
Pregadores de discórdia
Fugazes ao vento
Soltas odisséias

Regurgitam lembranças mórbidas
Gozos de um futuro num passado sóbrio.


estratagema vibrante e paradoxal – 01 de setembro de 2004

Às vésperas do comemorativo
O impulso
A avaliação do cansaço
O lucro diluído na dor muscular
O sono escasso
A noite mal dormida
O ano que passou

relação direta com a verdade – 01 de setembro de 2004

Às vésperas do comemorativo
O gozo
O calculo vitorioso
A expectativa superada
O dormir sem culpa

A preocupação e o ano adquirido

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

etc…e tal...
referencia – 19 de fevereiro de 2008

foto: Enrique Fabián - 2008

Axioma frugal
Fugiu pra Natal
Não viu Carnaval
Soltou-se total
Geléia geral
Um banho de sal
O sonho integral
O bem e o mal
Conflito legal
Conceito formal
Visão oriental
A dor visceral
Doidera normal
Momento genial
Ruptura mental
Estado fatal
Caminho ideal

Assim como tal

terça-feira, 27 de novembro de 2007

O incontestável
paz na alma – 1º de outubro de 2006 – 1 hora da manhã

foto: Pablo Fabián - 1974

Dear Lady Jane
Acabei de te deixar em casa materna e retornar para este sobrado, ora aconchegante, ora instigante, ora assombrado.
Como sempre, transitas em minha mente com toda a liberdade.
O cheiro constante de tua presença, em mim, faz com que as dores que suportamos se dissipem e ocupem o pequeno espaço que a elas é destinado.
Foi um lindo fim-de-semana. Daqueles que sabemos curtir.
No fogo cruzado dos trabalhos, encontramos um equilíbrio que
nos desiguala dos demais, nos faz cada vez mais ímpares e, dessa forma, cada vez mais unidos.
Essa união que incomoda e emociona que nos permite, apaixonadamente, viver sem diferenciar, ódios e extases. Viver desconfortavelmente um amor sublime que nos desafia a entendê-lo.
Engasgados em nossos filtros paradigmáticos, tentamos inutilmente fazer-nos caber em modelos preconcebidos. Nossas mascaras libertárias são descortinadas, desestruturadamente, por pequenos “inimigos” sombrios que nos ameçam com ciúmes infantís e sonhos cinderelescos.
Que maravilhosos somos, que ridículos.
Que linda essa oportunidade que nos foi dada.
Que grato sou, por te ter em meu caminho.
Te ver em mim em cada gesto, em cada rusga, na defesa inconcebível de discursos sem nexo. Penso que não nos consumamos, unicamente, pelo medo que temos de que isso aconteça.
Sabemos que isso mudará radicalmente nossas vidas, nossos planos, além de destruir para sempre velhos padrões que usamos como muletas.
Hoje, pela primeira vez tive medo do tempo por achar que o estivessemos perdendo. Porém, percebí que estamos mergulhados numa relação que não para de acontecer. Talvés mais instigante e intensa do que qualquer outra que tenhamos tido. Por mais que subverta nossos planos, provoque inquietudes e nos faça querer mante-la escondida dos demais, ela se sobrepõe e ocupa, plena, os espaços que permitimos.
As vezes transborda.
Obrigado por tudo.
Um beijo na alma.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Rusgas de um só dia
gunga-din-don-doca – de 1990


foto: Pablo Fabián – arte: Roberto Fabián - 1975

Deus distante de um povo exuberante e guerreiro
Ricos
Miseráveis de um luxo efêmero e nauseabundo
Marimbondo
Ladrão milenar
Filho pródigo de um deus solteiro

Sapateiro ou engraxate

Da reza ao texto
do texto à reza – 18 de junho de 1998


foto: Pablo Fabián - 1975

A respeito deste texto
Muito sei do que mereço
Sem desrespeito à regra
Me supero pelo avesso
Me atrevo com respeito
Dou noticia, faço prece
Rezo com ces, com cedilhas
Ponho esse, duplo esse
Ponho letra
Faço prece
Ouço isso como um canto
Santo tango gregoriano
Vivo num tempo cigano
Onde o presente é passado
De adjetivados sujeitos
Comungam, indiretos, substantivos
Relutantes prefácios e pleonasmos viciosos
Sou repleto quando rezo.

domingo, 11 de novembro de 2007

Deuses e demônios
...sob o pó das estrelas... – 1987


foto: Pablo Fabián - 1979

Nos recantos cansados, estes
Onde repousam deuses-demônios
Existe, num deles, caído
Escondido sob o pó das tristezas
Um objeto de ouro brilhante
Encravado de esperanças
Colhidas do chão em caminhos
Onde os que foram, não voltaram.
Encontre essa jóia preciosa
E liberte seus deuses-demônios
Antes que eles te levem
A perder as esperanças
E partir sem consciência
Por esses caminhos tão claros
Que levam a terras escuras.

sábado, 10 de novembro de 2007

Retreta
invitación – 14 de dezembro de 2003


foto: Pablo Fabián - 1977

Rumbo romano, radiano extendido
Siglo cortado, sangrado, sufrido

Pido cuidado y sigo perdido
Soy capataz hermano alarido

Tacho rechazo remiendo el costado
Quemada paleta de asado venado
Luces de tierra, luces de mar
Días de suerte, días de azar

Quiero serpientes de muchos colores
Son mis zapatos rotundos amores
Vuelven sonrisas de muchos dolores
Sueña un recuerdo de todos sabores

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Santo Cotidiano
segunda semana
– 13 de janeiro de 1988

foto: Pablo Fabián - 1991

Atividade, esta, neurótica.
Santo cotidiano,
Demência plena de cegueira fosca
,
Rumos obscuros de manutenção de um nada,

Nada, este, cheio de loucura.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Chorei de rir

gastura – 1980

foto: Pablo Fabián - 1997

Chorei de tanto rir
Rir de me lembrar

Que ri pra não chorar

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Juntamos, jantamos e jogamos
day after – 02 de novembro de 2007

foto: Fernanda Fabián - 2006

Os núcleos reunidos
Juntos, diluídos
Em clãs vestidos
Soberbos estilos

Berinjelas recheadas
Cuscús Islâmico
Tomates, cogumelos
E vinho branco

Anfitriã morena de sorriso cansado
Tumulto alegre

Amor bandido

Silencio da noite
Sexo Sentido

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Medo do Mar
Netuno oposição Vênus e Ascendente – 1º de novembro de 2003

foto: Pablo Fabián - 2007

Medo do mar
Medo do ar
Do vento
Do tempo

Medo ao relento
Deixado a contento
Guardado em fermento
Relapso momento

Medo profundo
Lembrança que afunda
Medida imprecisa
Imagem turva

Medo do nada
Frio enfadonho
Lembrança difícil
Recado do sonho

Medo da perda
Perda de nada
Nada no mar
Mar de lembranças

Medo de hoje
Sal do passado
Tempo esquecido
Abandonado

Medo do medo
Astro em quadrado

Filtra o futuro

Deforma o passado

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Minha amante
...medo de perder-te... – 1986

foto: Pablo Alejandro Fabián - 1974

Do recanto ao canto,
Teu canto reticente,
Teu encanto borbulhante.

A luz que se apodera de minh’alma,
Vem, retruca e até acalma,
O borbulhar de minha euforia incandescente.

Entranha em minha mente,
O medo de teu relutante vacilo,
O medo do vazio que me acompanha
Doente, constante, demente.

A justiça de teus olhos,
Peca cega, fugitiva, indecisa,
Teus lábios beijam rubros,
Momentos de silêncio,

O medo mórbido de tua retirada.

Os gabinetes silenciosos
tinta verde -
inverno de 1977

foto: Pablo Fabián - 1974

As pirâmides frias e pacientes
Repousam seus olhos nas areias escaldantes
As miragens se confundem
A realidade é árida
O espaço é o tempo
O silêncio dos detalhes é reduzido pelas sombras
Seus desejos e medos soam cristalinos entre um vento e outro
Sobram os que amam
Os que desejam
Os que só enxergam o que existe
Uns sorriem,

Outros são tristes.

domingo, 21 de outubro de 2007

Santo das trevas
súplica – novembro de 1986


foto: Pablo Fabián - 1988

Consciência, esta, que retratas, todos os dias.
Carismático ser de asas negras,
Epidêmico sentido,
Devastador de almas,
Guardião da rebeldia.

Ao dia claro vacilas
Sucumbes com a noite
O amanhecer do dia

Teus reflexos são estrelas
Teus movimentos dominam

Iluminado ser da noite,
Carismático ser de asas negras,
Asmodeu será teu guia?

Dor, esta, a que não sucumbes
E te ilumina a rebeldia,
Santo das trevas

É Deus que te guia.

O ego nosso de cada
regurgitar do trovão – verão de 1984

foto: Daniel de Andrade - 1992

Meu ego pedaço, meu laço com a vida,
Meu ego verdade, talvez sucumbida,
Meu ego inflado é quem me sufoca,
Deixado de lado é dor é derrota.

Reviso meu lastro, meu resto de vida,
Retrato de vida, passada, vivida,
Meu resto meu trapo, meu laço sufoca,
Inflado meu lastro, meu ego é derrota.

Laçando o pedaço, inflando o retrato,
Passando a derrota na ponta do laço,
Deixado de lado meu ego inflado,

Meu rastro, meu laço, derrota é vida
.


sábado, 20 de outubro de 2007

O tempo do tempo
...lúcidos alucinógenos... década de 80


foto: Marco Quintana - 2007

Existem momentos, que são
Maiores que dias ou até meses.
A gente acorda na janela
E a luz nos sai dos olhos,
Como fachos de felicidade.
Existem dias que a gente nem acorda
E depois, nem vai dormir.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

A forma do tempo
...lúcidos e disformes... – 1986




foto: Pablo Fabián - 1978

“O demônio fugiu da forma. Sacrificou-se tanto que, quase, voltou ao céu canonizado. Pobre demônio perdido em seu pecado”.

O cubo em si era incomodo.
Jogou-se numa pirâmide de lata,

Mas o barulho da lua o fazia chorar.

Quem resistiria ao incrível poder de sedução deste coiote?

A cratera clara em seu peito sangrava as carências do passado.

Quanto tempo havia passado?

Quantos lados tinha esse tempo?

Em quantos tantos de tempo sorria o que estava enterrado?

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Estreito, restrito, retrato de um grito

...pouso noturno... – 07 e 19 de abril de 2004

foto: Pablo Fabián - 1975

Ávido abismo
Lírio vestido
Jorros da alma
Sonho assistido

Julgas pecados
Sonho vestido
Jogos profanos
Vício assistido

Lírica alma
Vício vestido
Sonho profano
Jogo assistido

Turvas quimeras
Trechos perdidos
Sonho do Vício
Lírio Assistido

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Sentimentos esféricos

...Coca-Cola e LSD... – 1976


foto: Pablo Fabián - 1977

Enjaulado num pavilhão do tempo
Sentia o borbulhar dos pensamentos
Fugindo além das paredes

O cheiro da natureza

sombras de um dia de chuva – 1980


foto: Pablo Fabián - 1975

Olhei pro retrato dela
Com cansaço e desalento
Não é que não tenha tempo
Ou que ache a vida fácil
É que quando sinto o vento
Me revirando o cabelo
Revivo num atropelo
Meu passado constrangido
Talvez por eu ter fugido
Por não ter valido a pena
Guerrilheiro em quarentena
Funcionário da querência
Que até por ter competência
Acha graça da tristeza
Olhando o dia de frente
A favor da correnteza.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Dos sonhos que sonhei
como é que não vais gostar de mim, se te abro assim a alma – 1985


foto: Pablo Fabián - 1979
Já perdi a conta dos sonhos que sonhei
Mas, ainda vivo seus enredos.
Justificativas não existem
Pode haver mistérios
Junto a este sonho rotundo
Organizo e mistifico os fatos.
Jurei, certa vez, a mim mesmo
Nunca moralizar às vivências
Jorraram vivências.
E São Francisco me acuda
Tentei não cataloga-las.
Juro que tentei
De todas as formas

Mas, foi em vão.

Pintô, tem que curtir!
das linhas de um desenho - uma noite de 1978

arte: Pablo Fabián - 1972

Naturalmente, sinto que vai fluindo
E mesmo que não transpareça algum sentido
É muito bom aproveitar o fluxo
E curtir o que pinta

Perda
putrefactas lembranças - verão 1985


foto: Pablo Fabián - 2005

Uma vez, perdi um bagre
Era um bagre pequeno, sem dúvida
E ficou, do lado de baixo do banco
Do banco do carro, duma velha Belina
Velha e acabada
Pois bem, o bagre fedeu
Fedeu tanto, que deu pra sentir no outro dia
Sobre o bagre inerte, uma multidão de moscas verdes
Banqueteavam-se e desovavam em volúpia
Interferi e arremessei o bagre aos ares
O bagre bichado
Colônias de vermes se apossaram das imediações do banco
Do banco do carro
Da velha Belina
Marrom metálico carcomido
Usei detergente, desinfetante
E dei tempo ao tempo
Os vermes morreram
E ali se integraram, fétidos aos odores químicos dos desinfetantes
Aromatizados artificialmente com uma mescla azeda e doce
Batizada de odor-maçã
Dos restos do peixe
Putrefacto e descaracterizado
Mais a mescla dos vermes aromatizados
Surgiu mais uma cultura possibilitando a gênese
De imperceptíveis demônios
Produtos da carne putrefeita
E dos mais nefastos vermes varejeiros
Já nauseabundo, deixo a porta, janelas e ventarolas abertas

Na esperança...

domingo, 14 de outubro de 2007

Sin apuro
“insights” – 1989

foto: Pablo Fabián - 1981

No te apures domingo,
Que hoy, todavía es sábado.
Y solamente al lunes descansarás.

sábado, 13 de outubro de 2007

Buscas
onde reside meu sucesso? – 1985


foto: Pablo Fabián - 1991

Fui buscar o futuro
Encontrei um futuro que se dizia o certo
E lhe perguntei:
Em que pedaço do espaço está o meu sucesso?
O futuro me disse que fosse virtuoso e fosse Cortez
Que o sucesso estaria a minha espera onde quer que eu fosse.
O futuro me deixou mais atado ao passado do que o próprio presente.
À medida que compreendia o que me houvera dito
Estava o dito pelo não dito
E era como se me houvesse, o maldito, nada dito.
Segui vagando pelas escadarias e labirintos do meu passado
Tentando encontrar, realmente, o futuro
E o encontrei olhando às nuvens
Perguntei-lhe o que me reservava.
Disse que me sentasse e quando ele a mim chegasse
Eu notasse ou perguntasse.
Segui caminhando e falei com uma fração do tempo
E antes que eu pudesse perguntar
Ela passou correndo e me disse que eu parasse de procurar
Pois, senão, jamais encontraria

Era o presente....

Don Pablo Fabian.
foto: Romualdo Rurico Resquin Sicco - 1977
Tenho gostado do seu blog. Tomarei precauções no que doravante passarei a escrever ou dizer quando este dizer ou escrever se refira ao amigo portenho. Observo no seu blog uma quantidade razoável de boas fotos da sua, minha e de outras autorias. A foto do Ze e Pablo é de 1990, se não for de 1990 é de 1990.Procurei a carta resposta mas não encontrei, anunciar simplesmente basta? Anunciar já é a resposta ?
Fica o dito por não dito? Esperar não é ficar à espera ?
Seus versos biliares continuam a la Pablo diverticulite. Digo, sempre gostei da sua criatividade e desprendimento, sempre nos levam a concluir, seria o poeta um poeta, seria o poeta muito doido ou, poetar não tem limites ?
O bom de tudo é que existem várias faces na cara do poeta, do fotógrafo, do professor e do fiodeumaégua.
Tenho visto fotos de quase toda sua família, nunca foto da D.Maria Del Carmo, digo, da sua mãe. Se eu fizesse um blog a minha também não constaria. Diga-me lá, "viajarão juntos o caixão e o defunto?" ...
Consulta, quer abrir espaço para fotos ?
Há braços há pernas,
Daniel de Andrade-Gaia


Amigo amado e irmão de alma....

foto: Pablo Fabián - 1981

Daniel de Andrade tem sido um apoio (como sempre em minha vida) na elaboração descuidada e desregrada deste blog. Ele adora descuidos e negligencia às regras. Buscamos e vão a carta que me enviou que gerou "Oclahoma sem destino" e assim, não podendo apresenta-la, Daniel me envia uma contribuição atual, que data do século retrasado referente a Dona Safira que em parte tem a culpa de sua existência.

Pablo Fabián

para ver Daniel de Andrade: www.saitica.blogspot.com

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Ananóias
... – 20 de novembro de 2001

foto: Daniel de Andrade - 1992

Ananóias sempre fora um bom profeta. Mesmo naqueles invernos de turvar a visão ele era certeiro. A riqueza de detalhes era colossal.
Lembro, certa vez, quando ele convalescia do primeiro acidente de escada rolante, ao me ver, pegou delicadamente minha mão e citou, murmurando, um longo poema, em armênio antigo, que falava da importância de sermos apenas e com toda a intensidade, unicamente, o que somos. Fiquei perplexo com a exatidão das palavras que refletiam exatamente o seu sentimento ao cair magnificamente da escada rolante da Mesbla.
Voltei pra casa com aquelas palavras retumbando em minha mente e tudo que eu via era a cara do Ananóias balbuciando, entre pequenos gemidos, aquela jóia do pensamento armênio. Liguei imediatamente para a Lurdette, pois havíamos combinado almoçar juntos, e contei-lhe em poucas palavras o conceito profundo do poema entrelaçando com o ocorrido ao Ananóias. Ela ficou muda, pensei: celular ainda não existe por tanto não pode ser a bateria, - “Lurdette, Lurdette, você ainda esta aí?”
Muitos anos se passaram e Lurdette, então, não fazia mais parte de minhas preocupações. Há alguns anos encontrei o Libório e soube por ele que Lurdette havia casado e estava morando na Bélgica. Achei estranho, pois ela odiava a Bélgica. Num instinto investigativo fui buscar alguma pista nos álbuns de fotografias. Lurdette rindo, fazendo caretas, nua dormindo, cozinhando, nós dois no Parque Saint Hiliaire, o verão de barraca em Magistério, mas nada que pudesse me dar uma indicação de não sei o que.
À noite acendi uma ponta, que a Josianne havia deixado no cinzeiro, e liguei a TV. Para minha surpresa lá estava o Ananóias, no programa da Yvete Brandalise sendo questionado por seu perseverante hábito de cair de escadas rolantes. Ele estava todo enfaixado, seu lábio inferior um tanto inchado provocava um sibilar irritante, mas, mesmo assim fiquei fascinado por aquela magistral presença, ali na minha casa, dentro de minha TV. Por uns momentos fiquei viajando, sem prestar atenção ao que dizia, pelas ardilosas lembranças de nossas memórias. Ananóias teve um papel importante no meu discernimento.
Levantei o volume e fui até a cozinha pegar algo para comer quando escuto aquele familiar poema armênio dito, não murmurado balbuciantemente como da última vez e sim, numa versão sibilada.

Mais uma vez me impactou profundamente e foi no meio desse impacto que a Josianne chegou. Jogou as coisas sobre a mesinha da sala e veio com um sorriso cansado me dar um beijo de “oi”. Não consegui corresponder e contei-lhe sobre o Ananóias enquanto a
TV tentava me vender um “super ultra plin-plin-plin plus versão máster”,....................

OCLAHOMA SEM DESTINO

carta resposta para Daniel de Andrade ..... 23 de agosto de 1999


foto: Pablo Fabián - 1974

Quem detêm o para-plexo, do reduto sem reflexo, tem no peito uma quimera, escorrida como hera bem debaixo dos narizes.
Nas campinas e outros pagos, tenho visto com meus olhos, coisas que a boca nada diz. Coisas de torcer o nariz.
Entretanto a nuvem baixa, se entrelaçando com o campo, como um tango retorcido ou um punhado de fumo. No escuro ou manhãzinha lembro o frio de uma calçada que não fosse a parceria, hoje em dia lembraria como triste e medonho. Já passado como um sonho, a lembrança está na foto que tiraste deste amigo. Levo essa foto comigo, ou a colei em um álbum, o que importa é o espaço que dedico a esse amigo.
As vezes, não ver-te é esquisito, ainda mais sabendo o quanto te vi. As vezes faz parte das coisas que nunca ficam pra traz, que vem junto com a gente independente do dia. É aquela coisa que a gente pensa em contar e fica satisfeito de ter pensado e parte correndo pra outra como se estivesse apressado.
Ligeiro pra não fazer nada, pra repousar na vida e pilota-la deitado ou olhando pro nada. Êta pressa que eu tenho pra parar de fazer.

Se eu fosse baiano e tivesse nascido assim, sem o tal do complexo de culpa, acho que me aposentava, comprava uma rede e um chinelo macio, ficava na beira do rio contando pro rio histórias do asfalto, da gente de salto, dos que olham do alto ou moram no alto de torres absurdas.
É caro amigo Daniel Boy, a vida se fez macia. Depois de uma coronhada tem coisa que não importa.
A gente sabe que a porta protege bem pouquinho. E a tela que tem na janela é pra mosca não sair.
O tempo é uma bobagem que um dia eu inventei. Te peço um milhão de desculpas se algum dia te enganei, pois acreditava que o tempo estava ai quando nasci.
Hoje trabalho pouco, mas ando muito ocupado, deve ser porque não trabalhar, também dá muito trabalho. Vira e mexe estou na serra, na planície ou no planalto. E é tudo igual. Uns são mais iguais que outros, mas dá tudo no mesmo.

Eram duas vezes......

Reflexões do escritório de fazer tema de casa
O mundo já acabou um monte de vezes e a gente deu risada.
Atirei um pau no gato de pesado foi ao fundo...
Não foi por pouco que estamos os dois neste mundo!

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Revisão acadêmica
discurso de aposentadoria - 12 de setembro de 2002


foto: Daniel de Andrade - 1983

Olhando pros anos à frente
Vejo o futuro em lampejos
Que sejam todos felizes
Realizando seus desejos

Aqui vim sem convite
Pra dizer-lhes o que penso
Lamento se com palavras
Deixo algum presente tenso

Nestes anos acadêmicos
Aprendi a me calar
Percebi que esta casa
Não foi feita pra sonhar

Conheci a ditadura
E a falta de vergonha
Contrariei esses canhões
Fumando muita maconha

Pra muitos era uma fuga
O caminho da alienação
Mas na verdade era o jeito
De não perder a razão

Fiz panfletos subversivos
Dentro desta reitoria
Fiz teatro infantil
E muita patifaria

Eram os anos de ferro
Jovens na revolução
Que perderam a vida
Pra defender a Nação

Os anos foram passando
E a Nação acordou
O coração da moçada
Verde e amarelo brilhou

Reconquistamos o hino
E a bandeira com destreza
E ganhamos de herança
A ignorância e a pobreza

Numa escola viciada
Por anos de corrupção
Com um discurso vazio
Que não chega ao coração

Surgiram muitos partidos
Movimentos vingadores
E com camisa de força
Nos tornamos doutores

Cientistas preservadores
De uma elite cultural
Servidores em greve
Por um salário banal

Algumas mentes brilhantes
Brigam pra resolver
Um jeito que seja digno
Da gente, sobreviver

Outros, acomodados
Rezam pra não mudar
Cinderelas acadêmicas
Que não querem trabalhar

A história está escrita
Na decrepitude estrutural
Dos prédios de arquitetura
De um período colossal

Nesta casa envelhecida
Neste mesmo local
Deixamos para o futuro
Um patrimônio oficial

Cultura de um dia-a-dia
Desenvolvimento da ciência
E pra aqueles que ficam
Dose dupla de paciência

Tenho ouvido muitas queixas
Muitas palavras que mordem
Discursos estruturados
Na mais profunda desordem

O tempo passa e a escola
Vai cumprindo seu legado
Ensinando essa moçada
A ser um desempregado

Não culpem apenas a escola
Nem o seu professorado
O pacto de mediocridade
Por todos foi assinado

Tivemos até ministro
Ostentando doutorado
Levantou-se muita poeira
E ficou tudo arrasado

Ainda olho pra frente
Não me sinto derrotado
Cutuco os paradigmas
De um ensino ultrapassado

Sigo o caminho lutando
Com um discurso humanista
Sofro muito com isso
Meu coração é anarquista.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Não é coisa de pai bobão
...noite de domingo frio com Beatriz – 22 de maio de 2005


foto: Pablo Fabián

Nesta casa mora uma deusa
De encantos além da conta
Deixa-me boquiaberto
Com cada coisa que apronta

Luminosa e carinhosa
Veio dar o seu recado
Convicta e resoluta
É o presente ao meu lado

Ao nascer tinha um sorriso
Pros médicos, contratura
Mas com o olhar nos provava
Ser de amor e doçura

Dependente e autoritária
Corro pra todo o lado
E com sorrisos e beijos
Faz de mim um escravo

Aos céus me elevo e dou graças
Pelos filhos que tive até então
Pois tatuaram suas almas
No fundo do meu coração.

domingo, 7 de outubro de 2007

A, E, I, O, Uto...
exercício de rima – 12 de novembro de 2002


foto: Pablo Fabián - 2003

A respeito do contrato
Faço, reato e trato
Aventura de um retrato
Que concebo neste ato

Observo este dueto
Na estrutura me remeto
Acho o espaço neste gueto
Vou comendo o que cometo

Acordo cedo, fico afoito
No relógio já são oito
Café com leite e biscoito
E a lembrança de um bom coito

Loteria, sena e loto
Faço prece, faço voto
Ganho pouco, muito arroto
No momento sou devoto

A respeito do reduto
Reluto e uso luto
Suicídio em viaduto
De um vacilo resoluto

sábado, 6 de outubro de 2007

Santos de um cotidiano não preservado
referências fatais – 10 de maio de 2002

foto: Pablo Fabián - 1980

Na relutância branda de tu’alma espessa;
Nos mais profundos recônditos de tua formosura;
No repetir impertinente de tua doçura,
Vejo os reflexos opacos da dor que plantas;
Nas noites claras de tua loucura.

Serpente sinuosa de águas cristalinas;
Âmago consistente que sustenta o riso;
Retrato prolixo de uma amargura.

Sentada à beira da exuberante flora;
És fauna solitária no solidário clima;
Teus olhos fechados me privam;
Das mais ardentes tempestades.

Vem, brinda ao Sol tua existência;
Lava tu’alma na chuva fria;
Sorri;
E brinda o clímax.

Olha pra trás condescendente;
Vê as flores que pisaste;
Pede ao Pai que te ilumine;
E olha pra frente sem medo.

Cântico escondido que tens na alma;
Sonhos que negas acordada;
Despertar confuso que espedaça;
As memórias do que serás um dia.

Olha-te ao reflexo;
Aprecia a obra divina;
Vê que ao teu lado;
Estão a mulher e a menina.

Santa estrangeira sem cotidiano;
Mega estrutura de consciência escura;
Solta a menina;
Cospe a amargura.

Dança sozinha no claustro;
Vê que tens companhia;
Retoma a odisséia;
Do viver todo o dia.

Nada é excludente;
Tudo é harmonia;
O que tens na mente;
É sabedoria.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Clös dominia echo en astho
...astho encilio – by Estrulio Trolho – II X MMIII


foto:Julio Cutz – 1978 /arte:Pablo Fabián - 2007

Cunto livio antho en cuanto
Lurdo kluwskö restroena
Anto en cuanto clivio
Reaturdo restrovena

Inclábio palpiturno
Restrino en cuanto clivio
Mazlanea simultea
Irstricto lazzo cívio

Percabulas prepotante
Restracenas politurbio
Icludas retastuveas
Kläs putrás missurbio

Hipofanas nefecínas
Niestrasilfas dramuralhas
Incrosto clasto politurbo
Astracenas fractatulhas

Visto mictante
Limbio rustructo
Trono campante
Spatrada intructo


quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Infame ironia

homo-sapiens emocionalis – verão de 1984

foto: Pablo Fabián - 1975

Do soluço ao custo infame da ironia.
Que mania essa que contemplas?
Imerso em ti mesmo como se fosses algo.
Disperso em si, como vento ao vento.
Atento assim como distraído.
Solto, falso, livre, prisioneiro da liberdade.


O tempo que vejo
...agrupado em um tempo qualquer, vendo á vida num álbum de retratos... década de 80

foto: Pablo Fabián - 1978

Olho pro tempo e
Vejo no tempo,
O tempo em que olho.
Perco no tempo,
O pouco que vejo e vejo que perco,

O tempo em que olho.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Demonio de Dios
instigando el alma – 1985

foto: Julio Cutz - 1978

Demonio, demonio de Dios
Que vives en zonas oscuras
No me quites la luz y ni me des amarguras
Reflejos en negros espejos
Tu alma tan carda
Permite que de ti yo me aleje
Y tenga dentro mi la luz
Mismo que atado en tinieblas.


Um pouco de manhã
...ilusões... década de 70

foto: Pablo Fabián - 1980

À noite planejamos a vida e

Pela manhã mais nada nos resta.
Um pouco de sono e a lembrança de uma seresta,
Que prometia uma vida melhor.

Alma do meu cantar
canto do meu voar – 1980?

foto: Pablo Fabián - 2006

Não posso conter
Às aves que voam
Em busca de estrelas
No céu de minha boca

Ardem-me à garganta

Evocando um canto
Que só as aves
Conseguem cantar

Minha garganta se abre
Para que o seu céu
Possa existir

Não posso conter
As aves que voam
Em busca das estrelas
Do céu de minha boca

Não posso conter
Elas se alimentam de mim
Da carne do céu
Do céu de minha boca

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Disbundísmo
ata de inauguração – 23 de abril de 2004

foto: Daniel de Andrade - 1992

Lavro assim esta ata
Faz-se assim constituído
Num “insight”, num movimento
O “Disbundísmo Difundido”

Tais fundamentos se perdem
No período reflexivo
Freqüentando pensamentos
Já nasci comprometido

Eram os anos cinqüenta
De inquietações e contrastes
Da tecnologia inquietante
Das lembranças do desastre

Comemoram-se lembranças
O fim do desordeiro
Um povo pulverizado
E o lobo como cordeiro

A teoria dos conjuntos
Matemática moderna
O pensamento filosófico
Naufraga na baderna

Pós-guerreiros degenerados
Em crise existencial
Buscam no cheiro das flores
O antídoto do mal

Tem-se assim da rebeldia
O indicativo da luz
Uns encontram o caminho

Outros vestiram o capuz

Perceber
conto da madrugada - julho de 1983

arte: Pedro Pires
foto original: Enrique Fabián

O dia estava nublado.
Isso, não era suficiente para que Nibaldo deixa-se de caçar borboletas.
Verônica olhava através da vidraça embaçada,
As luzes pareciam borboletas,

E Nibaldo nem se dava conta.

Marcas
macacos me mordam – 1982


foto: Daniel Vidor

Minha vida é marcada
Por uma busca cega e alucinada
Regada por obsessões e exageros
Possibilitando incursões
Pelos subterrâneos da mente
Onde percorro as mais intensas

E envolventes emoções

Juntos?
conto da noite - julho de 1983


foto: Eduardo Tavares

Jabuco balbuciava em cima de seu sorvete
Odete delirava, debruçada, sobre o livro
E Raimundo pairava sob o efeito de seu baseado.
A campainha soou! Gritou Odete.
Gritou Odete? Perguntou Raimundo.
Jabuco correu à porta e atendeu o carteiro que trazia uma mala.
Jabuco fechou a porta, guardou a mala e mergulhou, neurótico, em seu sorvete.


segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Nem muito, nem tão pouco
conto da tarde - julho de 1983


foto: Pablo Fabián

Leôncio mostrava a seu filho
Que a vida que tinham era bela.
Seu filho, Hipólito, porém retrucava
Exemplificava a sua pouca sorte
Leôncio mostrava a seu filho
Que a vida que tinham era bela.
Exemplificando que a sua pouca sorte,
Não era, assim, tão pouca.
Hipólito se indignava
E ao velho pai retrucava.
Leôncio mostrava-se tranqüilo e seguro.
Hipólito achava que ele mentia...

Leôncio tinha certeza.

Yo profeta
“insights”...la academia esta llena de idiotas... – 1989


foto: Pablo Fabián - 1995

Pongo mis ideas en la boca
De los santos, de los dioses,
Brujos
, sábios, pensadores,
Oráculos, príncipes y profetas.
Me creen,
No me discuten ni me culpan.

¿Al final, quien soy?


Virgo
espelho cigano – 1º de outubro de 2002


foto: Pablo Fabián - 1981

O sorriso de um virginiano é um elogio a inteligência de quem o faz rir.
Exigentes, e ora sectários, detestam a mediocridade e a falta de classe.
Timidez não é o sinônimo da exagerada, autocrítica e necessidade de ser excelente, perfeito.
Se me perdoas o uso chulo das palavras, "uma merda" de atitude, que provoca mergulhos internos de um martírio carrasco.
Céticos, ora frios e racionais, precisam atender a um padrão de certezas que, muitas vezes, inexiste e impede o ascenso da irreverência criativa.
Hippies de vitrine, de planejada displicência são capazes de passar horas despenteando, harmonicamente o cabelo.
Seres impares e invejados pela segurança que transmitem. Por mais que em mundos internos, o caos seja soberano.
Criticados e copiados, estruturam, sistematicamente, tudo por onde passam. Umas malas. Porém completas, organizadas e previdentes. Malas com varias alças, rodinhas bem lubrificadas e com cores que combinam com a meias ou a roupa íntima.
Deliciosos e desconfortáveis são elementos indispensáveis na construção da surpresa, do encanto e do cuidado com detalhes que fazem a diferença.

Örlij the King of Babalhür

msn – maio 2003


foto: Patrícia Fabián - 2005

Do reino de Babalhür, das profundezas de Tzür
Surge, horripilante, o Rei dos inconseqüentes.

Babalhür fica sempre mais pra lá,
Pra lá de logo ali.
Nunca passamos por ela
E nem ela fica aqui.

Tzür, já mais conhecido
É o vale dos esquecidos
Vale dizer se lembrado
Traz na lembrança um castigo

Do reino de Babalhür, das profundezas de Tzür
Canta, com dissonantes, o Rei dos incompreendidos.

Filho de Catz e Romilda Bittencourt
Sabe-se lá onde anda
Neste vale profundo
Aquele que ninguém manda.

Örlij se chama assim
E ninguém nunca o encarou
Dizem que quem o fez
De Tzür jamais voltou

Do reino de Babalhür, das profundezas de Tzür
Janta, come elefantes, o Rei dos intolerantes.

domingo, 30 de setembro de 2007

Ojos, ejes, ajos e hijos

retumbante y sonoro – 1º de noviembre de 2003

foto: Rodrigo Pires - 2003

Tenía los ojos
Los hijos
Los ejes

Lloraba los ajos
Amaba sus hijos
Abría los ojos

Seguía en sus ejes
Dejaba los ojos
Mirando los hijos

Comía los ajos
Amaba sus ejes
Tenía los ojos

Amaba los hijos
Sentía sus ejes
Con sus propios ojos

Tenia los hijos
Lloraba los ojos

Perdido en los ejes

Lady Jane
lembrei de ti á tarde – 31 de julho de 2006

foto: Janice Machado - 2007 / arte : Pablo Fabián - 2007

Querida, amada e graciosa parceira, amiga e amante
Espero que teu dia tenha sido recheado de sucessos e que teu desgastante fazer tenha se revertido em mais um degrau dessa sublime escada que decidiste subir.
Que os céus estejam sempre te abençoando
Que teus olhos nunca se fechem à luz que brilha em teu entorno
Que teu cansaço não seja um estímulo a parar
Que teu sucesso alimente mais tua alma que teu ego humano
Que teu amor se universalize
Que teu medo seja uma lembrança de um passado superado
Que teu guerreiro sobreviva a cada morte
Que os nossos caminhos continuem se cruzando para que eu possa, a cada parada, te dar meu ombro.
Te admiro e te amo

Justiça cega
conto do dia -
julho de 1983

foto: Ceres Storchi - 1979

Já pairava no deserto a machadinha...
É uma miragem! Comentou Libório.
Só podia ser.
Mas na verdade, era o lenhador que se tornara invisível aos olhos de Libório e seus amigos.
Pancrácia sorria e corria solta levantando nuvens de areia com seus chinelos de dedo.
Atrás daquele rastro de fumaça
Se escondia a fenda máxima,
O pudor do dia,

A flagrância constrangedora, que aos poucos levou Libório a matar seus amigos.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Na evidência do espaço, junto alguns retalhos na busca de algum sentido...


A caminho do céu
“insigth” – 1981

foto: Pablo Fabián - 1978

Todos vão pro céu.

A diferença é que uns sofrem mais que outros, para chegar lá.



Lavando a alma
histórias que me contaram uma vez ..... 18 de junho de 2002

arte: Pablo Fabián - 1972
Era uma vez, (na verdade seria uma vez num futuro distante) um grupo de estudantes, do ensino básico de Psico-cibernética Avançada, que se encontrava às vésperas da entrega de um trabalho para a Feira Anual de Conhecimento Integrado sob a pressão natural exercida pelos mestres dessa entidade.

Após questionarem e destruírem todas as idéias que apareceram para solucionar essa questão, surge a idéia de buscar em antigos escritos uma pista que viesse a ilumina-los. Um dele encontrou, em um sebo no nível 32 da cidade velha, uma publicação do ano 1230, da era cristã, sobre a materialização de demônios, entidades negras e elementais. Imediatamente os olhos dessa turma se transformaram em pura luz.

Iniciaram a coleta dos materiais necessários e partiram para a preparação de um trabalho que seria sem dúvida o grande show da feira.

A idéia era simples, bastava materializar o demônio e assim que ele aparecesse o anestesiariam e o exporiam na feira e ainda aproveitariam para estudá-lo.

Dito e feito, no dia da feira o circo estava armado, com as ervas reunidas as palavras invocadoras foram pronunciadas e no meio de um ruído ensurdecedor e uma fumaça fedorenta apareceu, ainda meio deslocado, uma figura dantesca, realmente horrível, asquerosa e muito fedorenta. O demônio foi imediatamente imobilizado e, para evitar que praticasse qualquer tipo de inconveniente, foi anestesiado com uma dose cavalar de uma droga infalível.

A feira foi um sucesso e eles alcançaram nota máxima, tendo seus nomes divulgados nos mais reconhecidos instrumentos científicos de divulgação.

Ao encontrar a publicação, a Dra. Marietta Schüllep engasgou-se com um gole de chá, apagou o baseado na manteiga e correu para o tele-trasportador.

Imediatamente encontrou-se com o grupo de jovens para ver de perto a façanha da materialização.

A Dra. Marietta Schüllep estava envolvida num projeto de recuperação da memória histórica das ciências ocultas do Século XI e casualmente estudava, como sendo uma fantasia, a materialização de entidades.

Associou-se ao grupo de jovens e convidaram o Dr. Pike Niki especialista em anatomias espectrais para analisar o corpo quimicamente latente.

O Dr. Pike Niki constatou um número sem fim de moléstias, ora atuantes ora encubadas que se manifestavam no estranho corpo em estudo.

O demônio estava lá, inerte, sedado.

O Dr. Pike Niki estava extasiado com o conjunto de "doenças", a maior parte delas extintas, que configuravam um resgate sem precedentes no campo das ciências da decrepitude.

Ao poucos, na medida que identificavam as moléstias, anulavam os efeitos maléficos com antídotos e vacinas.

Era impressionante a metamorfose resultante desses procedimentos, onde a expressão maldosa e sofrida desaparecia do semblante do demônio adormecido.

Foram várias semanas de trabalho.

No vigésimo quinto dia, conseguiram identificar a última moléstia desse ser das trevas, que de trevas já tinha muito pouco.

A pele do demônio estava clara, hidratada, saudável.

Seu rosto já esboçava um sorriso tranqüilo e seu coração manifestava uma harmoniosa melodia.

Ao eliminar a última doença, o ser acordou.

Espreguiçou-se longamente, sorriu docemente e de suas costas surgiram duas brancas e majestosas asas que combinavam com o róseo pálido de sua pele delicada.

Desejou sorte e saúde com os olhos e subiu aos céus como um anjo recuperado.

foto: Pablo Fabián - 1978