segunda semana – 13 de janeiro de 1988

foto: Pablo Fabián - 1991
Atividade, esta, neurótica.
Santo cotidiano,
Demência plena de cegueira fosca
Rumos obscuros de manutenção de um nada,
Nada, este, cheio de loucura.
Aqui, há ordem em desordem, Devido à ordem em que a ordem se ordenou. Aqui não há datas, não há mapas nem tapas, São meras atas de momentos em desordem.
Juntamos, jantamos e jogamos
day after – 02 de novembro de 2007
foto: Fernanda Fabián - 2006
Juntos, diluídos
Em clãs vestidos
Soberbos estilos
Cuscús Islâmico
Tomates, cogumelos
E vinho branco
Tumulto alegre
Amor bandido
Silencio da noite
Sexo Sentido
foto: Pablo Fabián - 2007
Medo do ar
Do vento
Do tempo
Deixado a contento
Guardado em fermento
Relapso momento
Lembrança que afunda
Medida imprecisa
Imagem turva
Frio enfadonho
Lembrança difícil
Recado do sonho
Perda de nada
Nada no mar
Mar de lembranças
Sal do passado
Tempo esquecido
Abandonado
Astro em quadrado
Filtra o futuro
Deforma o passado
foto: Pablo Alejandro Fabián - 1974
Teu canto reticente,
Teu encanto borbulhante.
Vem, retruca e até acalma,
O borbulhar de minha euforia incandescente.
O medo de teu relutante vacilo,
O medo do vazio que me acompanha
Doente, constante, demente.
Peca cega, fugitiva, indecisa,
Teus lábios beijam rubros,
Momentos de silêncio,
O medo mórbido de tua retirada.
foto: Pablo Fabián - 1974
Repousam seus olhos nas areias escaldantes
As miragens se confundem
A realidade é árida
O espaço é o tempo
O silêncio dos detalhes é reduzido pelas sombras
Seus desejos e medos soam cristalinos entre um vento e outro
Sobram os que amam
Os que desejam
Os que só enxergam o que existe
Uns sorriem,
Outros são tristes.
Santo das trevas
súplica – novembro de 1986

foto: Pablo Fabián - 1988
Carismático ser de asas negras,
Epidêmico sentido,
Devastador de almas,
Guardião da rebeldia.
Sucumbes com a noite
O amanhecer do dia
Teus movimentos dominam
Iluminado ser da noite,
Carismático ser de asas negras,
Asmodeu será teu guia?
E te ilumina a rebeldia,
Santo das trevas
É Deus que te guia.
foto: Daniel de Andrade - 1992
Meu ego pedaço, meu laço com a vida,
Meu ego verdade, talvez sucumbida,
Meu ego inflado é quem me sufoca,
Deixado de lado é dor é derrota.
Retrato de vida, passada, vivida,
Meu resto meu trapo, meu laço sufoca,
Inflado meu lastro, meu ego é derrota.
Passando a derrota na ponta do laço,
Deixado de lado meu ego inflado,
Meu rastro, meu laço, derrota é vida.
“O demônio fugiu da forma. Sacrificou-se tanto que, quase, voltou ao céu canonizado. Pobre demônio perdido em seu pecado”.
O cubo em si era incomodo.Estreito, restrito, retrato de um grito
...pouso noturno... – 07 e 19 de abril de 2004

foto: Pablo Fabián - 1975
Ávido abismo
Lírio vestido
Jorros da alma
Sonho assistido
Julgas pecados
Sonho vestido
Jogos profanos
Vício assistido
Vício vestido
Sonho profano
Jogo assistido
Trechos perdidos
Sonho do Vício
Lírio Assistido
O cheiro da natureza
sombras de um dia de chuva – 1980

Olhei pro retrato dela
Com cansaço e desalento
Não é que não tenha tempo
Ou que ache a vida fácil
É que quando sinto o vento
Me revirando o cabelo
Revivo num atropelo
Meu passado constrangido
Talvez por eu ter fugido
Por não ter valido a pena
Guerrilheiro em quarentena
Funcionário da querência
Que até por ter competência
Acha graça da tristeza
Olhando o dia de frente
A favor da correnteza.
foto: Pablo Fabián - 1979
Já perdi a conta dos sonhos que sonhei
Mas, ainda vivo seus enredos.
Justificativas não existem
Pode haver mistérios
Junto a este sonho rotundo
Organizo e mistifico os fatos.
Jurei, certa vez, a mim mesmo
Nunca moralizar às vivências
Jorraram vivências.
E São Francisco me acuda
Tentei não cataloga-las.
Juro que tentei
De todas as formas
Mas, foi em vão.
Uma vez, perdi um bagre
Era um bagre pequeno, sem dúvida
E ficou, do lado de baixo do banco
Do banco do carro, duma velha Belina
Velha e acabada
Pois bem, o bagre fedeu
Fedeu tanto, que deu pra sentir no outro dia
Sobre o bagre inerte, uma multidão de moscas verdes
Banqueteavam-se e desovavam em volúpia
Interferi e arremessei o bagre aos ares
O bagre bichado
Colônias de vermes se apossaram das imediações do banco
Do banco do carro
Da velha Belina
Marrom metálico carcomido
Usei detergente, desinfetante
E dei tempo ao tempo
Os vermes morreram
E ali se integraram, fétidos aos odores químicos dos desinfetantes
Aromatizados artificialmente com uma mescla azeda e doce
Batizada de odor-maçã
Dos restos do peixe
Putrefacto e descaracterizado
Mais a mescla dos vermes aromatizados
Surgiu mais uma cultura possibilitando a gênese
De imperceptíveis demônios
Produtos da carne putrefeita
E dos mais nefastos vermes varejeiros
Já nauseabundo, deixo a porta, janelas e ventarolas abertas
Na esperança...
Fui buscar o futuro
Encontrei um futuro que se dizia o certo
E lhe perguntei:
Em que pedaço do espaço está o meu sucesso?
O futuro me disse que fosse virtuoso e fosse Cortez
Que o sucesso estaria a minha espera onde quer que eu fosse.
O futuro me deixou mais atado ao passado do que o próprio presente.
À medida que compreendia o que me houvera dito
Estava o dito pelo não dito
E era como se me houvesse, o maldito, nada dito.
Segui vagando pelas escadarias e labirintos do meu passado
Tentando encontrar, realmente, o futuro
E o encontrei olhando às nuvens
Perguntei-lhe o que me reservava.
Disse que me sentasse e quando ele a mim chegasse
Eu notasse ou perguntasse.
Segui caminhando e falei com uma fração do tempo
E antes que eu pudesse perguntar
Ela passou correndo e me disse que eu parasse de procurar
Pois, senão, jamais encontraria
Era o presente....
foto: Romualdo Rurico Resquin Sicco - 1977Amigo amado e irmão de alma....
foto: Pablo Fabián - 1981
Daniel de Andrade tem sido um apoio (como sempre em minha vida) na elaboração descuidada e desregrada deste blog. Ele adora descuidos e negligencia às regras. Buscamos e vão a carta que me enviou que gerou "Oclahoma sem destino" e assim, não podendo apresenta-la, Daniel me envia uma contribuição atual, que data do século retrasado referente a Dona Safira que em parte tem a culpa de sua existência.
Pablo Fabián
foto: Daniel de Andrade - 1992
Ananóias sempre fora um bom profeta. Mesmo naqueles invernos de turvar a visão ele era certeiro. A riqueza de detalhes era colossal.
Lembro, certa vez, quando ele convalescia do primeiro acidente de escada rolante, ao me ver, pegou delicadamente minha mão e citou, murmurando, um longo poema, em armênio antigo, que falava da importância de sermos apenas e com toda a intensidade, unicamente, o que somos. Fiquei perplexo com a exatidão das palavras que refletiam exatamente o seu sentimento ao cair magnificamente da escada rolante da Mesbla.
Voltei pra casa com aquelas palavras retumbando em minha mente e tudo que eu via era a cara do Ananóias balbuciando, entre pequenos gemidos, aquela jóia do pensamento armênio. Liguei imediatamente para a Lurdette, pois havíamos combinado almoçar juntos, e contei-lhe em poucas palavras o conceito profundo do poema entrelaçando com o ocorrido ao Ananóias. Ela ficou muda, pensei: celular ainda não existe por tanto não pode ser a bateria, - “Lurdette, Lurdette, você ainda esta aí?”
Muitos anos se passaram e Lurdette, então, não fazia mais parte de minhas preocupações. Há alguns anos encontrei o Libório e soube por ele que Lurdette havia casado e estava morando na Bélgica. Achei estranho, pois ela odiava a Bélgica. Num instinto investigativo fui buscar alguma pista nos álbuns de fotografias. Lurdette rindo, fazendo caretas, nua dormindo, cozinhando, nós dois no Parque Saint Hiliaire, o verão de barraca em Magistério, mas nada que pudesse me dar uma indicação de não sei o que.
À noite acendi uma ponta, que a Josianne havia deixado no cinzeiro, e liguei a TV. Para minha surpresa lá estava o Ananóias, no programa da Yvete Brandalise sendo questionado por seu perseverante hábito de cair de escadas rolantes. Ele estava todo enfaixado, seu lábio inferior um tanto inchado provocava um sibilar irritante, mas, mesmo assim fiquei fascinado por aquela magistral presença, ali na minha casa, dentro de minha TV. Por uns momentos fiquei viajando, sem prestar atenção ao que dizia, pelas ardilosas lembranças de nossas memórias. Ananóias teve um papel importante no meu discernimento.
Levantei o volume e fui até a cozinha pegar algo para comer quando escuto aquele familiar poema armênio dito, não murmurado balbuciantemente como da última vez e sim, numa versão sibilada.
Mais uma vez me impactou profundamente e foi no meio desse impacto que a Josianne chegou. Jogou as coisas sobre a mesinha da sala e veio com um sorriso cansado me dar um beijo de “oi”. Não consegui corresponder e contei-lhe sobre o Ananóias enquanto a TV tentava me vender um “super ultra plin-plin-plin plus versão máster”,....................
OCLAHOMA SEM DESTINO
carta resposta para Daniel de Andrade ..... 23 de agosto de 1999

Quem detêm o para-plexo, do reduto sem reflexo, tem no peito uma quimera, escorrida como hera bem debaixo dos narizes.
Nas campinas e outros pagos, tenho visto com meus olhos, coisas que a boca nada diz. Coisas de torcer o nariz.
Entretanto a nuvem baixa, se entrelaçando com o campo, como um tango retorcido ou um punhado de fumo. No escuro ou manhãzinha lembro o frio de uma calçada que não fosse a parceria, hoje em dia lembraria como triste e medonho. Já passado como um sonho, a lembrança está na foto que tiraste deste amigo. Levo essa foto comigo, ou a colei em um álbum, o que importa é o espaço que dedico a esse amigo.
As vezes, não ver-te é esquisito, ainda mais sabendo o quanto te vi. As vezes faz parte das coisas que nunca ficam pra traz, que vem junto com a gente independente do dia. É aquela coisa que a gente pensa em contar e fica satisfeito de ter pensado e parte correndo pra outra como se estivesse apressado.
Ligeiro pra não fazer nada, pra repousar na vida e pilota-la deitado ou olhando pro nada. Êta pressa que eu tenho pra parar de fazer.
Se eu fosse baiano e tivesse nascido assim, sem o tal do complexo de culpa, acho que me aposentava, comprava uma rede e um chinelo macio, ficava na beira do rio contando pro rio histórias do asfalto, da gente de salto, dos que olham do alto ou moram no alto de torres absurdas.
É caro amigo Daniel Boy, a vida se fez macia. Depois de uma coronhada tem coisa que não importa.
A gente sabe que a porta protege bem pouquinho. E a tela que tem na janela é pra mosca não sair.
O tempo é uma bobagem que um dia eu inventei. Te peço um milhão de desculpas se algum dia te enganei, pois acreditava que o tempo estava ai quando nasci.
Hoje trabalho pouco, mas ando muito ocupado, deve ser porque não trabalhar, também dá muito trabalho. Vira e mexe estou na serra, na planície ou no planalto. E é tudo igual. Uns são mais iguais que outros, mas dá tudo no mesmo.
Eram duas vezes......
O mundo já acabou um monte de vezes e a gente deu risada.
Atirei um pau no gato de pesado foi ao fundo...
Não foi por pouco que estamos os dois neste mundo!
Revisão acadêmica
discurso de aposentadoria - 12 de setembro de 2002

foto: Daniel de Andrade - 1983
Olhando pros anos à frente
Vejo o futuro em lampejos
Que sejam todos felizes
Realizando seus desejos
Aqui vim sem convite
Pra dizer-lhes o que penso
Lamento se com palavras
Deixo algum presente tenso
Nestes anos acadêmicos
Aprendi a me calar
Percebi que esta casa
Não foi feita pra sonhar
Conheci a ditadura
E a falta de vergonha
Contrariei esses canhões
Fumando muita maconha
Pra muitos era uma fuga
O caminho da alienação
Mas na verdade era o jeito
De não perder a razão
Fiz panfletos subversivos
Dentro desta reitoria
Fiz teatro infantil
E muita patifaria
Eram os anos de ferro
Jovens na revolução
Que perderam a vida
Pra defender a Nação
Os anos foram passando
E a Nação acordou
O coração da moçada
Verde e amarelo brilhou
Reconquistamos o hino
E a bandeira com destreza
E ganhamos de herança
A ignorância e a pobreza
Numa escola viciada
Por anos de corrupção
Com um discurso vazio
Que não chega ao coração
Surgiram muitos partidos
Movimentos vingadores
E com camisa de força
Nos tornamos doutores
Cientistas preservadores
De uma elite cultural
Servidores em greve
Por um salário banal
Algumas mentes brilhantes
Brigam pra resolver
Um jeito que seja digno
Da gente, sobreviver
Outros, acomodados
Rezam pra não mudar
Cinderelas acadêmicas
Que não querem trabalhar
A história está escrita
Na decrepitude estrutural
Dos prédios de arquitetura
De um período colossal
Nesta casa envelhecida
Neste mesmo local
Deixamos para o futuro
Um patrimônio oficial
Cultura de um dia-a-dia
Desenvolvimento da ciência
E pra aqueles que ficam
Dose dupla de paciência
Tenho ouvido muitas queixas
Muitas palavras que mordem
Discursos estruturados
Na mais profunda desordem
O tempo passa e a escola
Vai cumprindo seu legado
Ensinando essa moçada
A ser um desempregado
Não culpem apenas a escola
Nem o seu professorado
O pacto de mediocridade
Por todos foi assinado
Tivemos até ministro
Ostentando doutorado
Levantou-se muita poeira
E ficou tudo arrasado
Ainda olho pra frente
Não me sinto derrotado
Cutuco os paradigmas
De um ensino ultrapassado
Sigo o caminho lutando
Com um discurso humanista
Sofro muito com isso
Meu coração é anarquista.
Não é coisa de pai bobão
...noite de domingo frio com Beatriz – 22 de maio de 2005

foto: Pablo Fabián
Nesta casa mora uma deusa
De encantos além da conta
Deixa-me boquiaberto
Com cada coisa que apronta
Veio dar o seu recado
Convicta e resoluta
É o presente ao meu lado
Pros médicos, contratura
Mas com o olhar nos provava
Ser de amor e doçura
Corro pra todo o lado
E com sorrisos e beijos
Faz de mim um escravo
Pelos filhos que tive até então
Pois tatuaram suas almas
No fundo do meu coração.
A respeito do contrato
Faço, reato e trato
Aventura de um retrato
Que concebo neste ato
Na estrutura me remeto
Acho o espaço neste gueto
Vou comendo o que cometo
No relógio já são oito
Café com leite e biscoito
E a lembrança de um bom coito
Faço prece, faço voto
Ganho pouco, muito arroto
No momento sou devoto
Reluto e uso luto
Suicídio em viaduto
De um vacilo resoluto
Nos mais profundos recônditos de tua formosura;
No repetir impertinente de tua doçura,
Vejo os reflexos opacos da dor que plantas;
Nas noites claras de tua loucura.
Âmago consistente que sustenta o riso;
Retrato prolixo de uma amargura.
És fauna solitária no solidário clima;
Teus olhos fechados me privam;
Das mais ardentes tempestades.
Lava tu’alma na chuva fria;
Sorri;
E brinda o clímax.
Vê as flores que pisaste;
Pede ao Pai que te ilumine;
E olha pra frente sem medo.
Sonhos que negas acordada;
Despertar confuso que espedaça;
As memórias do que serás um dia.
Aprecia a obra divina;
Vê que ao teu lado;
Estão a mulher e a menina.
Mega estrutura de consciência escura;
Solta a menina;
Cospe a amargura.
Vê que tens companhia;
Retoma a odisséia;
Do viver todo o dia.
Tudo é harmonia;
O que tens na mente;
É sabedoria.
foto:Julio Cutz – 1978 /arte:Pablo Fabián - 2007
Cunto livio antho en cuanto
Lurdo kluwskö restroena
Anto en cuanto clivio
Reaturdo restrovena
Restrino en cuanto clivio
Mazlanea simultea
Irstricto lazzo cívio
Restracenas politurbio
Icludas retastuveas
Kläs putrás missurbio
Niestrasilfas dramuralhas
Incrosto clasto politurbo
Astracenas fractatulhas
Limbio rustructo
Trono campante
Spatrada intructo

Evocando um canto
Que só as aves
Conseguem cantar
Para que o seu céu
Possa existir
As aves que voam
Em busca das estrelas
Do céu de minha boca
Elas se alimentam de mim
Da carne do céu
Do céu de minha boca
foto: Daniel de Andrade - 1992
Lavro assim esta ata
Faz-se assim constituído
Num “insight”, num movimento
O “Disbundísmo Difundido”
No período reflexivo
Freqüentando pensamentos
Já nasci comprometido
De inquietações e contrastes
Da tecnologia inquietante
Das lembranças do desastre
O fim do desordeiro
Um povo pulverizado
E o lobo como cordeiro
Matemática moderna
O pensamento filosófico
Naufraga na baderna
Em crise existencial
Buscam no cheiro das flores
O antídoto do mal
O indicativo da luz
Uns encontram o caminho
Outros vestiram o capuz
Juntos?
conto da noite - julho de 1983

Jabuco balbuciava em cima de seu sorvete
Odete delirava, debruçada, sobre o livro
E Raimundo pairava sob o efeito de seu baseado.
A campainha soou! Gritou Odete.
Gritou Odete? Perguntou Raimundo.
Jabuco correu à porta e atendeu o carteiro que trazia uma mala.
Jabuco fechou a porta, guardou a mala e mergulhou, neurótico, em seu sorvete.
Os Estúdios Silenciosos são os refúgios lamuriosos da solidão.